Com 30 candidatos, cidade pulveriza votos, fortalece nomes de fora e arrisca reduzir sua representatividade.
A eleição de 2026 ainda nem começou oficialmente, mas Foz do Iguaçu já revive um velho dilema: quanto mais candidatos a cidade lança, menores parecem ser as chances de construir uma bancada forte em Curitiba e Brasília.
Até o momento, são 16 candidatos a deputado estadual e 14 a deputado federal, totalizando cerca de 30 candidaturas ligadas ao município. O número impressiona e, ao mesmo tempo, preocupa quem acompanha a política local.
A pergunta é inevitável: essa diversidade fortalece a democracia ou repete uma fórmula que, historicamente, tem enfraquecido a representação política de Foz do Iguaçu?
Um filme que o eleitor já assistiu
A história recente mostra que Foz raramente consegue transformar seu potencial eleitoral em cadeiras na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados.
Enquanto cidades de porte semelhante costumam concentrar forças em poucos nomes competitivos, Foz tradicionalmente pulveriza seus votos entre dezenas de candidatos. O resultado, na maioria das eleições, é conhecido: candidatos da cidade ficam pelo caminho e parlamentares de outras regiões acabam representando interesses que nem sempre coincidem com as prioridades da Tríplice Fronteira.
Embora o sistema proporcional permita a eleição de vários candidatos do mesmo partido, ele também exige votação expressiva. Quando muitos candidatos disputam o mesmo eleitorado, nenhum deles alcança a densidade necessária para se destacar.
O eleitor também mudou
Se antes o problema era apenas a divisão dos votos entre candidatos locais, hoje existe outro fenômeno igualmente importante.
Levantamento do analista político e estatístico Luiz Carlos Kossar, elaborado com base nas eleições de 2002, 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022, mostra que os eleitores de Foz do Iguaçu vêm, ao longo das últimas duas décadas, reduzindo a votação em candidatos da própria cidade.
Segundo o estudo, embora o número de votos nominais tenha permanecido relativamente estável, a distribuição mudou profundamente. A cada eleição aumenta a votação destinada a candidatos de outras regiões do Paraná.
Em 2022, por exemplo, mais da metade dos votos válidos para deputado federal em Foz foi destinada a candidatos de fora do município.
Para Luiz Carlos Kossar, os números mostram uma tendência clara de enfraquecimento da representação política local. “Os candidatos locais não conseguem convencer os eleitores que preferem votar em representantes de outros municípios”.
Entre os fatores apontados pelo analista estão a pulverização dos partidos políticos e o crescimento das campanhas digitais, que facilitaram a entrada de candidatos de outras regiões na disputa pelo eleitorado iguaçuense.
Nem toda candidatura nasce para vencer
Nos bastidores da política, também existe outra explicação para o elevado número de candidaturas.
Nem todos os candidatos entram na disputa com reais perspectivas de conquistar uma cadeira. Parte das candidaturas cumpre um papel estratégico dentro dos partidos e federações, fortalecendo chapas proporcionais e consolidando as tradicionais “dobradinhas” com candidatos considerados prioritários pelas legendas.
Há um paradoxo na política iguaçuense. Enquanto cidades de porte semelhante procuram construir consensos em torno de poucas candidaturas competitivas, Foz insiste em lançar dezenas de postulantes. Muitos entram na disputa legitimamente para buscar uma cadeira. Outros acabam assumindo, na prática, o papel de “cabos eleitorais de luxo” de candidatos mais fortes dos partidos, principalmente nas dobradinhas com postulantes de Curitiba e de outras regiões do Estado. O efeito é conhecido: o eleitor divide seus votos entre inúmeros candidatos locais, cresce a votação dos chamados “paraquedistas” e, ao final da eleição, a cidade volta a lamentar a falta de representatividade política.
A estratégia é legal e faz parte da engenharia eleitoral brasileira. O problema, segundo críticos desse modelo, é que ela amplia a fragmentação dos votos locais e dificulta ainda mais a eleição de representantes de Foz do Iguaçu.
Vereadores já de olho em outro cargo
Outro dado chama atenção.
Mesmo com a atual legislatura da Câmara Municipal tendo iniciado há um ano e meio, ao menos cinco vereadores – três deles de primeiro mandato – já colocaram seus nomes na disputa por vagas na Assembleia Legislativa ou na Câmara dos Deputados.
O movimento é absolutamente legítimo sob o ponto de vista eleitoral. Entretanto, ele amplia a concorrência entre lideranças que disputam o mesmo eleitorado e contribui para a pulverização dos votos dentro do próprio município.
O custo da fragmentação
A consequência desse processo vai além da eleição.
Sem representantes em número compatível com sua importância econômica, turística e estratégica, Foz do Iguaçu perde influência política, reduz sua capacidade de articulação e depende cada vez mais da boa vontade de parlamentares eleitos por outras regiões para defender projetos de interesse local.
É verdade que deputados de fora podem destinar recursos ao município. Mas dificilmente terão o mesmo nível de compromisso com pautas estruturantes da fronteira, como segurança pública, integração internacional, turismo, logística, infraestrutura e desenvolvimento regional.
A conta chega depois da eleição
A democracia pressupõe pluralidade de candidaturas e liberdade para que qualquer cidadão dispute um mandato.
O problema surge quando a multiplicação de candidaturas deixa de representar diversidade e passa a produzir fragmentação.
Foz do Iguaçu chega a 2026 com aproximadamente 30 candidatos, um eleitorado que, historicamente, vem destinando cada vez mais votos a candidatos de fora e partidos que, muitas vezes, priorizam projetos eleitorais estaduais em detrimento da construção de candidaturas locais realmente competitivas.
Ao final da eleição, o roteiro costuma ser conhecido: votos pulverizados, candidatos locais derrotados, fortalecimento de lideranças de outras regiões e uma pergunta que se repete há décadas:
Como uma das cidades mais importantes do Paraná continua tendo tanta dificuldade para eleger deputados na mesma proporção de sua relevância política, econômica e populacional?



