Representação questiona uso de recursos públicos em evento da AVP e se soma às apurações sobre materiais esportivos e rachadinha.
Uma nova representação protocolada e já recepcionada no Ministério Público do Paraná (MPPR) pede a apuração da utilização de recursos públicos pela vereadora Anice Gazzoui (PP) para custear passagens, deslocamento e inscrição em um evento realizado em Curitiba, entre os dias 29 de setembro e 2 de outubro de 2025. O documento, assinado pelo jornalista Edenilson Alves de Queiroz Júnior, sustenta que a parlamentar pode ter se beneficiado de recursos da Câmara Municipal para participar de um encontro organizado em parceria com uma entidade presidida por ela própria.
Segundo a representação, o “Encontro de Vereadoras do Paraná” foi promovido pela empresa Liderança Pública em parceria com a Associação de Vereadoras do Paraná (AVP), entidade criada e presidida por Anice Gazzoui. Para o denunciante, a utilização de recursos públicos para custear a participação da parlamentar em um evento ligado diretamente à associação que ela dirige pode caracterizar conflito de interesses e eventual desvio de finalidade.
A denúncia também destaca a relação entre a AVP e a empresa Liderança Pública, administrada por Frederico Freitag. Conforme a representação, o empresário foi o responsável por emitir, meses depois, uma declaração utilizada pela vereadora para justificar a origem de materiais esportivos cuja procedência vinha sendo questionada em outra investigação. Para o autor da denúncia, essa sequência de fatos evidencia a necessidade de aprofundamento das apurações.
Vereadora participou como palestrante
Outro ponto levantado na representação é que Anice Gazzoui integrou a programação oficial do evento não apenas como participante, mas também como palestrante. O documento reúne materiais de divulgação e fotografias do encontro para sustentar essa afirmação.
Segundo o denunciante, essa circunstância levanta dúvidas sobre a necessidade do pagamento da inscrição com recursos públicos, já que palestrantes podem, dependendo das regras do evento, participar sem custos ou em condições diferenciadas.
Por isso, a representação requer que o Ministério Público solicite os regulamentos do evento, os documentos relativos à inscrição e as regras aplicáveis aos palestrantes para verificar se houve regularidade no custeio da despesa.
Terceira frente de questionamentos
A nova representação amplia uma série de investigações e denúncias envolvendo a vereadora.
Uma delas já está sendo apurada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e trata da distribuição de materiais esportivos adquiridos com recursos de emendas parlamentares impositivas entre 2023 e 2025.
A denúncia, também apresentada pelo jornalista Ed Queiroz, sustenta que equipamentos esportivos comprados com dinheiro público para atender projetos esportivos de Foz do Iguaçu teriam sido distribuídos em outros municípios. Segundo o denunciante, empenhos da Prefeitura comprovariam a aquisição dos materiais com recursos públicos vinculados, enquanto publicações em redes sociais indicariam entregas fora da cidade.
A representação questiona ainda a justificativa apresentada pela vereadora de que parte dos materiais distribuídos teria origem em doações particulares, tese que deverá ser analisada durante a investigação.
Operação Cashback
Além da investigação sobre os materiais esportivos, Anice Gazzoui também é alvo de uma denúncia criminal oferecida pelo Ministério Público do Paraná, resultado de investigação conduzida pelo Gaeco sobre um suposto esquema de “rachadinha” envolvendo servidores comissionados de seu gabinete entre os anos de 2019 e 2022.
Na denúncia, o Ministério Público afirma que assessores eram obrigados a devolver parte dos salários à parlamentar ou a intermediários, sob ameaça de exoneração. O órgão sustenta ter reunido depoimentos, perícias em aparelhos celulares, movimentações bancárias e outros elementos que apontariam para um esquema estruturado de exigência de repasses financeiros.
Segundo a acusação, parte dos valores teria sido utilizada para custear despesas pessoais da vereadora e de familiares. O Ministério Público pede a condenação da parlamentar pelo crime de concussão, além da devolução dos valores supostamente recebidos, suspensão dos direitos políticos e eventual perda do mandato em caso de condenação definitiva.
O processo tramita na 1ª Vara Criminal de Foz do Iguaçu e ainda aguarda análise do Poder Judiciário, não havendo decisão definitiva sobre os fatos.
O que pede a nova representação
Na mais recente denúncia, o autor requer que o Ministério Público investigue a regularidade do pagamento da inscrição da vereadora, especialmente diante de sua condição de palestrante, e apure eventual conflito de interesses decorrente da utilização de recursos públicos em evento promovido em parceria com entidade presidida pela própria parlamentar. Também solicita a verificação da legalidade do custeio das passagens e do deslocamento pagos pela Câmara Municipal.
A representação afirma ainda que a Câmara Municipal foi comunicada sobre os fatos e, até a data do protocolo, não teria instaurado procedimento administrativo para analisar o caso ou buscar eventual ressarcimento aos cofres públicos.
A reportagem procurou a vereadora Anice Gazzoui para comentar a nova denúncia. Até o fechamento desta matéria não houve manifestação. O espaço permanece aberto e o texto será atualizado caso a parlamentar apresente sua versão dos fatos.
As denúncias sobre o material esportivo e da utilização dos recursos públicos em evento também foram encaminhadas à Câmara de Vereadores.

