Secretária afirma que procedimento foi instaurado de ofício pela Polícia Militar; fonte da Prefeitura diz que situação foi considerada irregular após consulta ao Estado. Entre fevereiro e junho, remunerações somaram R$ 99.732,19.
A secretária municipal da Mulher de Foz do Iguaçu, Scheila Fátima de Melo Rosso, apresentou ao Portal Trivox documentos da Polícia Militar do Paraná para contestar a reportagem publicada nesta sexta-feira (3), que revelou o recebimento simultâneo de remuneração do Governo do Estado e da Prefeitura de Foz do Iguaçu.
Segundo Scheila, ela não solicitou aposentadoria. De acordo com a secretária, todo o procedimento foi instaurado de ofício pela Polícia Militar após o encerramento do período máximo de dois anos de licença previsto para militares que passam a exercer cargo civil.
“No dia 12 de fevereiro encerrou a minha agregação por conta do início da minha aposentadoria proporcional. Essa aposentadoria é proporcional porque, quando completaram dois anos de afastamento, eu optei por continuar no cargo de secretária municipal da Mulher para continuar desenvolvendo o trabalho que venho fazendo no município.”
Ela afirma que a passagem para a reserva é consequência prevista na legislação militar. “Essa aposentadoria é ex officio. Não fui eu quem pedi. Quem faz todos os trâmites é a Polícia Militar. Quando dá dois anos de afastamento em um cargo civil, o policial, tendo mais de dez anos de serviço, passa para a aposentadoria proporcional.”
Sobre o fato de ainda constar como policial militar da ativa no Portal da Transparência do Estado, Scheila disse desconhecer o motivo.
“Eu não sei por que no sistema aparece que eu estou ativa. Isso é uma questão do sistema da Polícia Militar.”
A secretária também afirmou que foi surpreendida pela decisão da Prefeitura de suspender o pagamento do salário municipal referente ao mês de junho. “A Prefeitura bloqueou o meu salário esse mês para que a Polícia Militar pudesse se manifestar.”
Ela também fez questão de negar que tenha bloqueado os telefones celulares de jornalistas!
PM diz processo está `em andamento`
Os documentos encaminhados pela secretária confirmam que a Polícia Militar instaurou um processo de Reserva Remunerada Ex Officio por agregação, iniciado após o encerramento do período de dois anos de afastamento para o exercício do cargo de secretária municipal.
Em declaração assinada pelo comandante do 5º Comando Regional da Polícia Militar, no último dia 2 de julho, a corporação informa que “o processo de Reserva Remunerada Ex Officio por agregação encontra-se em trâmite junto à Paranaprevidência para homologação e posterior publicação em Boletim Geral”.

Outro documento da Diretoria de Gestão de Pessoas da Polícia Militar registra que o procedimento foi iniciado em 12 de fevereiro de 2026, data em que terminou o período legal de agregação.
Os documentos, portanto, confirmam que o processo de aposentadoria está em andamento, mas ainda não foi concluído.
Portal do Estado continua registrando PM como ativa
Embora a Polícia Militar confirme a existência do processo administrativo, o Portal da Transparência do Governo do Paraná continua registrando Scheila Rosso como policial militar da ativa, vinculada à Secretaria de Estado da Segurança Pública.
O sistema também registra pagamentos referentes aos meses de fevereiro, março, abril, maio e junho de 2026, que totalizam R$ 51.325,78 em remuneração bruta estadual. O salário que vem sendo pago à servidora é o da ativa e não o proporcional que deverá receber quando for aposentada.
No mesmo período, Scheila permaneceu exercendo normalmente o cargo de secretária municipal da Mulher. Somadas as remunerações recebidas do Estado e da Prefeitura, os salários chegaram a R$ 99.732,19 entre fevereiro e junho.
Prefeitura identificou divergência
A versão apresentada pela secretária, entretanto, não elimina os questionamentos levantados na primeira reportagem do Portal Trivox.
Conforme apurado pela reportagem junto a uma fonte da Administração Municipal que participou da análise do caso e pediu para não ser identificada, o Departamento de Recursos Humanos consultou oficialmente o Governo do Estado após verificar que o período de agregação havia terminado em fevereiro.
Segundo essa fonte, a resposta recebida indicava que Scheila constava novamente como policial militar da ativa, situação que levou à elaboração de um parecer interno recomendando a regularização administrativa. A mesma fonte resumiu a preocupação da equipe técnica em uma frase: “A situação está irregular. Precisa ser resolvida imediatamente. Hoje a batata quente está no colo do Município.”
Foi após essa análise que a Prefeitura decidiu suspender o pagamento da remuneração municipal referente ao mês de junho e solicitar esclarecimentos formais à Polícia Militar.
Perguntas continuam sem resposta
Os documentos apresentados por Scheila reforçam que o processo de aposentadoria foi instaurado de ofício pela Polícia Militar e confirmam que ele segue em tramitação.
Entretanto, a documentação não esclarece por que, mesmo com um processo de transferência para a reserva em andamento desde fevereiro, o Portal da Transparência do Estado continuou registrando a secretária como policial militar da ativa e apontando pagamentos nessa condição funcional até o mês de junho.

