Investigado por emitir títulos acadêmicos irregulares para brasileiros, Fenner é apontado como um dos líderes do suposto esquema.
O gaúcho Ismael Fenner tornou-se o principal nome de um esquema investigado por autoridades brasileiras e paraguaias que apura a emissão irregular de diplomas de graduação, mestrado e doutorado destinados, principalmente, a estudantes brasileiros. Na última sexta-feira (17), o Ministério Público do Paraguai solicitou à Justiça a prisão cautelar de Fenner, apontado como um dos líderes da organização, além de pedir medidas para impedir que ele deixe o país durante o andamento das investigações.
O pedido de prisão ocorreu após uma operação realizada durante uma aula presencial com cerca de 100 estudantes brasileiros em um hotel de Assunção. A ação faz parte da investigação conduzida pela Promotoria Especializada em Crimes Econômicos e Anticorrupção, que apura a oferta de cursos de pós-graduação sem autorização das autoridades educacionais paraguaias e a emissão de documentos acadêmicos considerados irregulares.
Segundo os investigadores, a organização utilizava documentos públicos falsificados e registros acadêmicos fraudulentos para conferir aparência de legalidade aos cursos. A suspeita é de que os títulos fossem posteriormente apresentados em processos de reconhecimento no Brasil, permitindo que seus portadores buscassem progressão funcional, aumento salarial ou registro profissional.
Confissão em processo no Brasil, em Foz do Iguaçu
Embora o pedido de prisão seja recente, Ismael Fenner já havia aparecido no radar das autoridades brasileiras. Em setembro de 2025, ele assinou um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) com o Ministério Público do Paraná, homologado pela 1ª Vara Criminal de Foz do Iguaçu.
No acordo, Fenner confessou participação em um caso de falsificação de diplomas da Universidade Francis Xavier. Conforme a denúncia do Ministério Público, ele teria articulado a produção de cerca de 40 diplomas falsificados, utilizando assinaturas de uma pessoa sem qualquer vínculo com a instituição. Para evitar o prosseguimento da ação penal, comprometeu-se a cumprir as condições estabelecidas pelo acordo, entre elas o pagamento de prestação pecuniária e a obrigação de não praticar novos crimes durante o período de prova.
Como funcionava o suposto esquema
As investigações indicam que a fraude ia muito além da simples falsificação de documentos.
O modelo investigado começava com a oferta de cursos de mestrado e doutorado por instituições paraguaias que, segundo as autoridades, não possuíam autorização para ofertar determinados programas. Os cursos eram direcionados principalmente a brasileiros interessados em obter rapidamente uma titulação acadêmica.
Depois de concluídos, os diplomas eram encaminhados para reconhecimento em universidades brasileiras por meio da Plataforma Carolina Bori, sistema oficial do Ministério da Educação (MEC) destinado ao reconhecimento de diplomas estrangeiros.
Embora a legislação determine que cada pedido seja analisado individualmente, levantamentos revelaram que algumas universidades brasileiras reconheceram centenas de títulos emitidos pela mesma instituição, o que passou a despertar suspeitas sobre a regularidade desses procedimentos.
A situação da FICS
A Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (FICS), apontada como uma das instituições envolvidas, é alvo de investigação da Polícia Federal brasileira e das autoridades paraguaias.
Documentos obtidos durante as investigações indicam que a instituição teve o registro de diplomas suspenso pelo Conselho Nacional de Educação Superior (Cones) em 2018, após denúncias de funcionamento irregular, oferta de cursos sem autorização e emissão de títulos sem validade oficial.
Mesmo assim, centenas de diplomas continuaram sendo apresentados para reconhecimento no Brasil. Dados da Plataforma Carolina Bori apontam 917 solicitações relacionadas à FICS, das quais 841 foram integralmente deferidas por instituições brasileiras.
Um mercado milionário
Especialistas ouvidos durante as investigações afirmam que o esquema movimenta milhões de reais.
Universidades brasileiras cobram taxas que variam de milhares de reais para analisar cada pedido de reconhecimento de diploma estrangeiro. Como algumas instituições processaram centenas de títulos oriundos da mesma faculdade investigada, estima-se que apenas com esses procedimentos tenham sido arrecadados milhões de reais.
Grande parte dos interessados seria formada por professores, servidores públicos e profissionais que buscavam os títulos para obter progressão na carreira, gratificações salariais ou pontuação em concursos públicos.
Cooperação internacional
Como o público-alvo da organização seria majoritariamente formado por brasileiros, o caso deverá contar com cooperação entre autoridades do Brasil e do Paraguai.
O objetivo é identificar quantos diplomas emitidos pela organização foram utilizados em processos de reconhecimento no Brasil, além de verificar eventual utilização desses documentos para registro profissional e concessão de vantagens funcionais.
O Ministério Público paraguaio informou que outras pessoas podem ser denunciadas ao longo da investigação. Até o momento, a defesa de Ismael Fenner não havia se manifestado publicamente sobre o pedido de prisão cautelar, enquanto a FICS sustenta que atua dentro da legalidade e atribui a situação a um processo de adequação da legislação educacional paraguaia.



